quarta-feira, 11 de julho de 2012

Manejo e treinamento de Gavião-Bombachinha-Grande Accipiter bicolor. Métodos, resultados e conclusões.

Manejo e treinamento de Gavião-bombachinha-grande Accipiter bicolor (Vieillot, 1817) (Accipitridae). Métodos, resultados e conclusões.
Delo Chiarelli Verginio (Graduando, no 8° período de Medicina Veterinária, Faculdade de Jaguariúna/SP. E-mail: delocv@superig.com.br)

1.    Introdução
 O Accipiter bicolor  é uma ave neotropical encontrada  em quase todo o Brasil, habita matas preservadas incluindo as ciliares, de preferência utilizando as bordas para caçar. Possuem asas arredondadas curtas e caudas alongadas, característica esta favorável para vôos dentro de florestas. Ornitófagos, os indivíduos de vida livre se especializaram quase que exclusivamente de aves ou eventualmente pequenos mamíferos e répteis. Em Falcoaria as fêmeas podem ser direcionadas para codornas, perdizes e aves aquáticas de pequeno e médio porte, como amplamente aplicado por nossos vizinhos do Chile, Argentina e Peru.
Com meu exemplar adquirido em criadouro comercial, tentei utilizar o método McDermott de forma pura, que, entre outros, preconiza que a ave se alimente sozinha desde muito pequena não associando assim o falcoeiro com fonte alimentar. Desta forma obtive os resultados que serão mostrados abaixo.

2.    Materiais e métodos
Fui buscá-la no criadouro dia 22/11/11. Infelizmente o proprietário teve alguns imprevistos que me impediram de pegar a ave com 5 dias de vida que era o tempo indicado pela literatura para se iniciar o treino. Acabei encontrando-a com 18 dias, mas, segundo o criador já se alimentava sozinha desde os 5 dias e já estava com os braceletes como requisitei. A única coisa que não foi feita foi atrelar a ave logo que desse os primeiros passos e isso causou um certo contratempo para mim nos dois primeiros dias pois ela vivia solta dentro de casa e inevitavelmente estranhou ficar atrelada pois já estava bastante ágil com 18 dias.
Outro fato que não deu para consertar foi a convivência com cães. No período em que esteve no criadouro ela não foi exposta e fiz isso aos poucos. Não liga para cães passando por baixo dela quando está no punho ou alcândara, mas se assusta quando estão perto demais, principalmente no nível do solo e acabei não forçando muito.
Instalei os sinos no tarso logo de início e se acostumou completamente a eles.
Me tomou muito tempo, mas o manning que fiz com ela foi extremo! Passeava com ela pelo centro da cidade, em canteiros entre avenidas de trânsito rápido dos dois lados e ela não esboçava nenhuma preocupação. Em casa acompanhava a faxineira com o aspirador de pó. Passeava de carro sempre com ela no punho. Na beirada de piscina batia as mãos na água. Às vezes quando passava por baixo de algum telhado ou árvore ela ameaçava querer saltar para o ponto mais alto (e as vezes até saltava), mas não considerava isso anormal.
Aceita toques pelo corpo todo. Eu fazia questão de pegar nos pés e em todo o tarso, inclusive no equipamento enquanto ela se alimentava no pratinho.
A partir do terceiro dia comigo já comecei a oferecer codornas abatidas, abertas e inteiras no ninho, alternando com as picadas no prato. Fazia baggies utilizando Manons incapacitados e ela matava e comia prontamente. Sempre manuseio no alimento enquanto ela come.
Sobre os poleiros, quando não estava no meu punho fica no arco ou na alcândara tradicional. No arco notei que se agita de vez em quando procurando um lugar mais alto, já na alcândara dificilmente acontece. Enquanto a cauda estava curta (saindo a segunda listra) não havia problemas, mas reparava que ela ficava de atravessada na alcândara apoiando a cauda no poleiro e isso futuramente poderia danificar as penas. Acabei fazendo um Pole Pearch para solucionar naquele momento.
Neste período a ave estava muito dócil, calma e aceitava aparentemente todos os estímulos que a submeti até aquele momento. Fiquei naquele ritmo frenético por mais alguns meses até iniciar o treinamento propriamente dito. Com 26 dias pesava 483g.
Notava que os momentos de maior agitação eram pela manhã quando era colocada no jardim para banho de sol e ao anoitecer. Isso foi resolvido com os passeios nestes horários. Então fazia o passeio pela manhã logo que a retirava do recinto e isso fez com que ficasse mais calma quando estava de volta. No final da tarde fazia outro passeio e depois já colocava no recinto escuro e isso resolvia a agitação crepuscular.
Com aproximadamente 40 dias comecei a oferecer carcaças de codornas inteiras para estimular que bicasse e abrisse sozinha o alimento. Depois de mais ou menos três dias fazendo isso ofereci o primeiro baggie de codorna para que ela mesmo capturasse e abatesse e ela fez com sucesso. Me aproximava da ave e tocava o alimento e seus pés sem que ela demonstrasse sinais de agressão, possessão ou ato de carregar. Neste ponto, deixava o poleiro em arco do lado e quando ela estava saciada abandonava a carcaça e saltava para o poleiro. Comecei a fazer isso na rua de casa onde ela comia observando as pessoas, carros, motos, etc, duas vezes por dia. O peso começou a reduzir sozinho e já estava nesta época com 434g.
Iniciei então o treino com carcaças maiores de galinhas garnizés de diversos padrões de coloração. Sem ela ver o que estava fazendo, abatia e preparava a carcaça expondo o tórax aberto e deixava em sua caixa ninho em um canto qualquer da casa, colocava o poleiro em arco do lado e ia buscar a ave que estava no pole perch sem ver a situação. Na primeira vez coloquei ela no arco e ela demonstrou bastante curiosidade. Após pouco mais de um minuto saltou na carcaça e começou a comer. Deixei que explorasse sozinha por um tempo e depois agachei ao seu lado e comecei a tocar nos pés da ave e no alimento enquanto ela comia despreocupadamente.
Depois de saciada, saltava de volta para o arco, esperava para que se limpasse e recolhia a ave. A carcaça eu guardava em uma sacola plástica e na geladeira para o próximo treino. Após esta primeira vez a ave atacava instantaneamente a carcaça assim que a via. Fiz isso por 10 dias juntamente com o manning e algumas codornas vivas em dias alternados.
Quando ela completou 60 dias introduzi a isca pela primeira vez. Amarrei meia codorna e joguei no chão ao seu lado. Ela examinou por alguns segundos e saltou na isca e iniciou a comer. Neste meio tempo fiz o de sempre, toquei no alimento e nos pés da ave enquanto comia.
Aos 60 dias, com o englúvio vazio pesava 398g e sua cauda já estava praticamente completa.
Nesta fase iniciei a redução de peso tentando no máximo fazê-la perder 2g por dia. Começou a ficar vocal, porém um pio que não incomodava absolutamente nada. Passou a cobrir o alimento mas não demonstrou nenhuma agressividade.
Iniciei os vôos com ela pesando por volta de 370g e passou a responder de uma forma razoável com 345g. Primeiramente oferecia a isca no ar e isso também não motivava muito a ave, pelo contrário, estava estimulando a carregar. Depois quando passei a entregar no chão as coisas melhoraram. Com 332g já estava vindo para a isca na distância completa do meu quintal (21 metros) no primeiro chamado, fazendo 4 vôos. Baixei mais 2g e levei para o campo com 330g. A resposta me surpreendeu, estava um pouco dispersa, mas não demorava mais de 15 segundos para voar na isca. Comecei com 10 metros no primeiro vôo e vi que poderia aumentar, terminei os últimos 3 vôos a 25m.
Fazia diariamente algumas sessões de caixa de transporte. Às vezes a ave até dormia na caixa. Se adaptou muito bem. Neste meio tempo já estava acostumada à rotina de treino também: Voa para a isca, amarro pedaços pequenos, acaricio os pés e toco o alimento enquanto come, depois que termina jogo sem a ave ver um pedacinho de carne na sua frente e ela automaticamente solta a isca para comer o pedacinho. Escondo a isca e ela sobe ao punho. A ave cobre a isca muito calorosamente e muitas vezes danificam-se todas as penas da cauda, mas não carrega e nunca demonstra agressividade. Pelo menos duas vezes na semana reparo as penas com água quente.
Outro fator que prejudica bastante a cauda é o transporte pois quando está no peso de vôo se agita bastante dentro da caixa.
Com 326g fez seu primeiro vôo livre a 150m com resposta no primeiro apito. Não carregava e não demonstrava agressividade, a troca é executada perfeitamente.
Com um pouco mais de três meses comigo a ave estava voando livre em campo e respondendo à isca no primeiro chamado a 180m. Fui aumentando o número de vôos para condicioná-la fisicamente e introduzindo a escapes com até 3x o seu peso. A ave investe ferozmente sem hesitar e domina muitas vezes sem precisar de minha ajuda. O sprint é fenomenal e ela parte do punho a uma distância de 30m em perseguição direta ao escape de uma forma que nunca havia presenciado.

3.    Resultados conclusões e observações
Após este período trabalhando a ave, pude perceber algumas características, que valem a pena ser ressaltadas:
 - O desconforto alimentar a deixou mais agitada no poleiro, punho e caixa de transporte. Levá-la a lugares muito movimentados como fazia antes é impraticável, principalmente se você se preocupa com as penas. Procuro fazer socialização na medida do possível, mas está sendo difícil. Não tolera mais andar dentro do carro, ato que fazia normalmente quando o peso estava alto. No poleiro fica muito agitada e sempre tenho receio de que ela acabe se machucando apesar de nunca ter acontecido. Se assusta muito fácil com tudo e outras vezes sem motivo aparente.
- Quando se fala no cuidado com as penas, o problema não é que o A. bicolor é agitado demais. Ele é agitado, mas o grande "x" da questão é que suas penas são extremamente delicadas e se estragam com facilidade. Está cobrindo demais a isca, com as asas e cauda, sendo assim, eu procuro proteger o máximo que consigo suas penas. Hoje em dia sua cauda está inteira destruída.
- Quanto à agressividade, ainda não demonstrou nenhuma. Até hoje nunca me atacou de nenhuma forma. Nunca tentou carregar, apenas cobre no local e me permite manusear a presa normalmente.                                                               
- Sua audição é diferente de todas as outras espécies que já manuseei. Ela escuta muito bem e se incomoda muito com sons diferentes quando está em seu peso de vôo.
- Quando volta a zona de conforto alimentar a grande maioria dos desvios comportamentais desaparecem.
Sendo assim, pela única experiência que tive, cheguei a conclusão de que o A. bicolor é sim uma ave eficiente, extremamente rápida e funcional para Falcoaria, porém de manejo muito complexo. Não digo isso pelo treino em si e sim por seu temperamento que faz com que sua qualidade de vida em cativeiro seja muito prejudicada. Talvez essa característica seja marcante neste indivíduo que possuo, mas como foi o único, essa foi a impressão que ela me deixou.


Bibliografia:


 FERGUSON-LEE, James; CHRISTIE, David A. Raptors of the world. New York: Houghton Mifflin Company, 2001.
FOX, Nick. Understanding the bird of prey. Canada: Hancock House Publishers, 1995.
- MCDERMOTT, Michael. The imprint accipiter II. Western Sporting, Ranchester, WY, 2009.
MCDERMOTT, Michael. Accipitrine behavioral problems, diagnosis & treatment. Western Sporting, Ranchester, WY, 2004.

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