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sexta-feira, 1 de agosto de 2025

Punho ocupado, coração dividido: o pai falcoeiro

Minha ave está pronta. Começou a caçar, responde com precisão, entendeu o jogo. E talvez seja justamente por isso que dói tanto aceitar a dificuldade de não levá-la ao campo como antes. No papel, parecia simples: manter peso, rotina, continuar caçando. Até porque eu já conhecia essa vida de responsabilidades. Tenho uma filha mais velha. Quando minha esposa engravidou do segundo bebê, pensei: “Agora vai ser tranquilo. Já passei por isso. Dá para conciliar.” Foi assim que retornei à falcoaria, cheio de planos e confiança. Mas a realidade é um desafio muito maior do que imaginei.

Agora, tudo acontece na hora que dá. E nem sempre essa hora coincide com a presença das presas. É isso que mais pesa: abrir espaço na agenda, ajustar tudo, e descobrir que o campo está vazio, a luz indo embora, o vento contrário. E a ave, cheia de energia, me olha como quem diz: “É só isso por hoje?”. É quando percebo que essa arte, feita de precisão e espera, não combina com improviso. Ou, se combina, cobra caro.


E tem outra variável nessa equação: a cobrança silenciosa — e às vezes explícita — para estar presente em casa. Não é injusta. Minha esposa carrega nos braços um bebê que também é meu. Ela precisa de mim. E eu sei que preciso estar lá. A verdade é que, por mais que eu tente, não existe equilíbrio perfeito. Cada ida ao campo carrega a sensação de dever dividido. É uma corda esticada entre duas paixões: Ambas exigem presença. Nenhuma aceita ser deixada de lado.


As dificuldades são muitas. Não é sobre ensinar a caçar — isso já fizemos. É sobre não perder o que conquistamos. A ave está ótima, mas constância é tudo. Uma semana sem voar não é detalhe: é músculo que enfraquece, reflexos que esfriam, confiança que se desgasta. E a culpa pesa. Porque sei do que essa ave é capaz. Sei que merece mais do que esses treinos picotados no meio do caos.


Então tento negociar com o tempo: um final de tarde, um intervalo entre sonecas, uma brecha qualquer. Às vezes dá certo — e esses momentos viram quase sagrados: o sino tocando, o mergulho, a volta firme ao punho. Outras vezes, sobra apenas pesar, revisar o equipamento, oferecer um treino seco — e correr para casa. Melhor que nada, mas longe do que gostaria.


E no meio disso tudo, fica a pergunta que não me larga: dá para equilibrar? Não sei. Só sei que, entre a ave e o filho, existe algo em comum: ambos dependem de mim. Ambos pedem algo além da técnica — pedem entrega. Custou para eu entender, mas hoje sei: a falcoaria é feita de fases, como a vida. Talvez essa seja a fase de aceitar voos mais curtos, caçadas interrompidas, planos adiados. De aprender que “a hora que dá” não é a hora perfeita — mas é a hora possível. E isso já basta.


Porque, no fim, quando consigo soltar a ave e vê-la cortar o ar, mesmo por pouco tempo, sinto que continuo sendo quem sempre fui — só que agora também sou pai. E isso muda tudo. 

Um comentário:

  1. Mano suas palavras são perfeitas pra muitas realidades !parabens!

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