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sexta-feira, 8 de agosto de 2025

Dois corvos e um cavaleiro esquecido

Às vezes a poesia é um afago.

Às vezes, um soco no estômago.

The Twa Corbies (“Os Dois Corvos”) é o tipo de balada medieval escocesa que não se preocupa em dourar a pílula: ela chega, pousa ao seu lado, e cochicha verdades duras sobre morte, abandono e o quanto somos rapidamente esquecidos.


Atualmente estou relendo o livro Classical Falconry, de Nick Fox, e nele há uma coletânea fascinante de poemas antigos ligados à Falcoaria e ao mundo medieval. Com o tempo, pretendo trazer mais análises como esta para o blog — explorando não só o significado dos versos, mas também o contexto histórico e cultural por trás deles.

Se você gostar desse tipo de conteúdo, me avise nos comentários ou pelas redes sociais. Seu feedback vai me ajudar a saber se vale a pena continuar essa série de imersão literária.


Se você espera cavaleiros nobres, cães fiéis e damas chorando ao pé do corpo, está no poema errado. Aqui, até o falcão tem coisas mais interessantes para fazer — e a dama… bom, como diz o outro Marquinho, “viúvo é quem morre”. Kkkk


Um pouco de origem


Essa balada aparece registrada no início do século XIX, mas é claramente mais antiga, herdeira da tradição oral escocesa. Ela é, na verdade, uma versão “pós-romântica” (ou melhor, anti-romântica) de outra canção chamada The Three Ravens.

Na versão dos Três Corvos, o cavaleiro morto é protegido por seus animais e por sua amada, num retrato de lealdade e devoção. Já em The Twa Corbies, os dois corvos se mostram muito mais pragmáticos: a morte é uma oportunidade de refeição, e ninguém vai impedir.


O texto está escrito em Scots, um dialeto do inglês com forte identidade própria. Isso dá um sabor rústico e musical, mas também dificulta a leitura para quem só conhece o inglês moderno. Palavras como ane (one), ken (know), hame (home) e naebody (nobody) fazem parte dessa sonoridade.


O que acontece na história


O narrador, caminhando sozinho, ouve dois corvos conversando. Um deles pergunta onde irão jantar. O outro responde:

— Atrás daquele muro velho jaz um cavaleiro recém-morto. Ninguém sabe, exceto seu cão, seu falcão e sua bela dama.

Mas o cão foi caçar, o falcão buscar aves, e a dama já tem outro amante.

Conclusão? O banquete está servido.


E o destino final do cavaleiro? Ser consumido, ter os ossos expostos ao vento eterno, e ser esquecido por todos — exceto, talvez, por esses dois corvos bem alimentados.


A versão adaptada


Para facilitar, com a ajuda do ChatGPT, adaptei o poema ao português, mantendo o ritmo e a atmosfera sombria:



Os Dois Corvos

(adaptação em português de “The Twa Corbies”)


Enquanto eu andava só na estrada,

Ouvi dois corvos em voz cansada,

Um disse ao outro com ar sagaz:

— Onde jantamos neste dia, rapaz?

Onde jantamos neste dia, rapaz?


Atrás do muro que o tempo abateu,

Jaz um cavaleiro que há pouco morreu.

Ninguém o viu cair no chão,

Só o seu falcão, seu cão e a paixão,

Só o seu falcão, seu cão e a paixão.


O cão foi caçar por matas e rios,

O falcão buscar aves nos céus vazios,

A dama já tem novo abraçar,

Assim podemos em paz jantar,

Assim podemos em paz jantar.


Muitos dirão seu nome chorando,

Mas ninguém saberá onde anda descansando.

Sobre seus ossos, nus ao luar,

O vento eterno há de soprar,

O vento eterno há de soprar.



The Twa Corbies é sobre morte, sim, mas também sobre o que vem depois dela: o esquecimento. É um lembrete de que a lealdade — seja humana, canina ou falconiforme — pode ter prazo de validade.

No contexto medieval, o cão e o falcão eram símbolos de status e companheirismo. Aqui, eles não são vilões, apenas seguem sua natureza: caçar, sobreviver, viver. O mundo não para para chorar por nós.


E talvez essa seja a parte mais sombria: não é que haja crueldade, mas indiferença.


William Golding, no romance Os Herdeiros, retrata esse mesmo tipo de choque frio e inevitável. A história mostra neandertais vivendo de forma simples e quase inocente, até que encontram os Homo sapiens — mais organizados, mais eficientes, e completamente alheios ao destino dos primeiros. Não há maldade deliberada, mas o resultado é o mesmo: um desaparece para que o outro siga.


Já no cinema, o filme “Onde os fracos não têm vez” carrega essa mesma lógica: não existem heróis providenciais, nem justiça divina. Há apenas o acaso, a inevitabilidade e a marcha impassível dos acontecimentos. Assim como no poema, não é a violência que mais assusta, mas a certeza de que o mundo continuará girando depois de nós — sem pausa, sem cerimônia, sem saudade.




Se você gosta de romantizar a Idade Média, The Twa Corbies é um balde de água fria. Essa não é a era dos salões dourados e da honra imaculada — é a Idade Média como ela deveria ser retratada: tão nua e crua quanto a própria natureza. Um mundo onde não existe justiça individual, apenas a sobrevivência, o acaso e a indiferença das forças que regem a vida. E, assim como os corvos sobre o cavaleiro, o tempo e o vento seguem o seu curso, sem se importar com quem fica pelo caminho.

Um comentário:

  1. Somos iludidos pela mente, pois, se ela admitisse o tempo todo o quão efêmeros somos, haveria ainda mais angústia existencial. No fundo, sabemos que é puro devaneio, mas a covardia sináptica fala mais alto. A consciência limita-nos a uma escala temporal curta, para que a irrefutável finitude e a indiferença não nos paralisem. Hesitamos quase sempre que tocamos a razão.

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