Há dias atrás, escrevi uma análise literária que mencionava de passagem a balada inglesa The Three Ravens, registrada por Thomas Ravenscroft em 1611. Seria injusto não me deter mais longamente nela, sobretudo por sua relação quase intrínseca com a versão posterior e mais sombria, The Twa Corbies. Ambas compartilham estrutura, mas divergem no tom e na conclusão, refletindo não só estilos, mas visões distintas do mundo.
Em The Three Ravens, três corvos conversam sobre onde farão sua refeição. Do alto, observam um cavaleiro morto no campo. Seria presa fácil, não fosse o corpo protegido por cães e falcões — guardiões de uma fidelidade incorruptível. Quando surge a corça, não é para partilhar a carniça, mas para cumprir um ato de piedade: lambe as feridas, carrega o corpo e o enterra. Antes do anoitecer, também morre. É um final agridoce, onde a morte é inevitável, mas a honra e a lealdade prevalecem.
Novamente com a ajuda do ChatGPT, fiz uma tradução adaptada:
Três corvos negros num galho a pousar,
Lá no além, ai, lá no além,
Três corvos negros num galho a pousar,
No além,
Três corvos negros num galho a pousar,
Mais negros não podiam ficar.
No além, ai, lá no além.
Disse um ao outro com ar matinal:
“Onde faremos nosso banquete afinal?”
Lá no verde campo, ao luar,
Jaz um cavaleiro, morto a lutar,
Seus cães repousam junto aos pés,
Guardam seu dono como ninguém o fez,
Seus falcões voam pelo ar,
E ave nenhuma ousa ali passar.
Mas eis que vem uma corça a correr,
Pesada e farta de novo viver,
Ergueu-lhe a cabeça ensanguentada,
Beijou-lhe a ferida tão rubra e molhada,
Pôs-lhe no dorso e seguiu devagar,
Até junto ao lago para o enterrar,
Antes da aurora o enterro findou,
E antes da noite a corça tombou.
Deus dê a todo cavalheiro tal sorte:
Falcões, bons cães… e um amor mais forte.
O contexto histórico é fundamental para compreender a diferença de tom entre esta balada e The Twa Corbies. No início do século XVII, a Inglaterra de Ravenscroft ainda guardava ecos do código cavaleiresco e de uma visão ordenada da natureza, onde os animais de caça — cães e aves de rapina — são prolongamentos da honra do homem. The Twa Corbies, surgida depois, na tradição escocesa, troca a lealdade pelo abandono: o corpo é deixado às aves e a morte vem acompanhada de indiferença.
A simbologia em The Three Ravens é direta: corvos como inevitabilidade da morte, cães e falcões como sentinelas de um vínculo que atravessa o túmulo, a corça como sacrifício e pureza. Essa tríade não é apenas narrativa; é um microcosmo de valores que a sociedade inglesa ainda desejava afirmar, mesmo diante do declínio da cavalaria.
Esse mesmo núcleo temático — a dignidade diante do fim — ecoa em obras como O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway. Ali, o velho Santiago enfrenta não corvos, mas o mar e a própria perda inevitável. Sua luta não se mede pelo resultado, mas pela postura diante da derrota. No cinema, A Lenda do Cavaleiro Verde (The Green Knight, 2021) atualiza a mesma tensão: o herói não é testado pela vitória em combate, mas pela coragem e constância diante da própria mortalidade.
O que une a balada de 1611, o romance de Hemingway e o filme contemporâneo é a recusa de entregar ao público um consolo fácil. São narrativas onde a morte não é um anticlímax, mas o eixo em torno do qual giram lealdade, coragem e sentido de honra. Em todas elas, há a aceitação de que a vida é transitória, mas que um gesto fiel — seja o voo de um falcão, a vigília de um cão ou a jornada de um homem ao mar — pode resistir ao esquecimento.
The Three Ravens é mais que uma canção antiga: é um lembrete de que a morte pode ser inevitável, mas o modo como a enfrentamos — e quem escolhe permanecer ao nosso lado — é o que define nossa verdadeira herança.
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