Em 2013, eu treinava uma jovem Falco femoralis desde os cinco dias de vida. Apliquei o método de imprint de McDermott — The Imprint Accipiter — com toda a dedicação que só quem vive intensamente a Falcoaria consegue entender. Eu tinha tempo, disponibilidade e uma vontade enorme de fazer dar certo. A ave cresceu comigo, não apenas sob meu cuidado, mas em convivência diária, intensa, formando um vínculo que transcendia o técnico.
À medida que ela se desenvolvia, mostrava um potencial admirável. Os primeiros voos livres foram emocionantes. Os treinos com lure fly, a introdução à caça… tudo corria como nos livros. Era o tipo de processo que faz qualquer falcoeiro acreditar que encontrou sua ave definitiva.
Mas a Falcoaria, como a vida, às vezes nos surpreende com aquilo que escapa ao controle.
Um dia, exatamente um ano após o início do processo, precisei sair de casa por cerca de 45 minutos. Deixei a ave empoleirada em sua alcândara na varanda, como tantas outras vezes, encapuzada e presa com o tradicional nó de falcoeiro. Quando voltei, encontrei-a vazia. De alguma forma misteriosa — e até hoje inexplicável — ela desfez o nó, retirou o próprio capuz e fugiu, levando consigo todo o equipamento de atrelamento.
Procurei por dias. Caminhei por bairros, chamei no lure, colei cartazes pela vizinhança. Mas ela nunca mais foi vista. E o que mais me doía era saber: aves que fogem com os apetrechos presos quase sempre se enroscam em árvores ou fios — e muitas vezes morrem assim, sem ninguém ver, em silêncio brutal.
Foi o tipo de perda que não dói só na prática, mas no coração. E, por muito tempo, me afastei da Falcoaria. Não por falta de amor, mas por excesso dele.
Hoje, ao escrever esse relato, não busco consolo. Além de tentar tirar isso do meu sistema, quero compartilhar. Porque na Falcoaria — como em qualquer arte viva — os imprevistos são inevitáveis. Não importa o nível de experiência, o cuidado ou o vínculo. Sempre haverá o elemento incontrolável. E é justamente aí que entra a virtude mais difícil de cultivar: a resiliência.
Se há algo que aprendi com essa perda, é que precisamos continuar. Adaptar. Refletir. E, quando o momento chegar, voltar ao campo com humildade, sabedoria e o peito limpo de culpa. Nem toda ave volta. Mas sempre podemos retornar a nós mesmos — mais maduros, ponderados, mais atentos, e com ainda mais respeito pela liberdade que tentamos, em vão, domesticar.
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